A solidariedade não é esmola social e sim um valor

O papa Francisco se dirigiu na audiência do último sábado, 25 de maio, aos participantes da conferência internacional organizada pela Fundação Centesimus Annus Pro Pontifice
 
CIDADE DO VATICANO, 27 de Maio de 2013 (Zenit.org) - O papa Francisco se dirigiu na audiência do último sábado, 25 de maio, aos participantes da conferência internacional organizada pela Fundação Centesimus Annus Pro Pontifice. Reproduzimos a seguir seu discurso, publicado por L’Osservatore Romano.
 
Senhores cardeais,
Venerados irmãos no episcopado e no sacerdócio,
Ilustres e caros amigos, bom dia a todos!
 
Estou muito feliz de encontrá-los por ocasião da conferência internacional da Fundação Centesimus Annus Pro Pontifice, cujo tema foi "Repensando a solidariedade em prol do emprego: os desafios do século XXI". Saúdo cordialmente cada um de vocês e agradeço, em particular, ao seu presidente, o dr. Domingo Sugranyes, pelas suas amáveis palavras.
 
A Fundação Centesimus Annus foi fundada pelo beato João Paulo II, há vinte anos, e traz o nome da encíclica que ele assinou no centenário da Rerum Novarum. Sua esfera de reflexão e ação é, portanto, a da Doutrina Social da Igreja, com a qual contribuíram em muitos aspectos os papas do século passado e Bento XVI, em particular com a encíclica Caritas in Veritate, mas também com discursos memoráveis.
 
Eu gostaria de começar agradecendo a vocês pelos seus esforços em aprofundar e difundir o conhecimento da doutrina social, com os seus cursos e publicações. Acho que é muito bonito e importante este seu serviço ao magistério social, como leigos que vivem na sociedade, no mundo da economia e do trabalho.
 
É justamente a tratar do trabalho que se orienta esta sua convenção, na perspectiva da solidariedade, que é um valor fundamental da doutrina social, conforme fomos lembrados pelo beato João Paulo II.
 
Ele, em 1981, dez anos antes da Centesimus Annus, escreveu a encíclica Laborem Exercens, inteiramente dedicada ao trabalho humano.
 
O que significa “repensar a solidariedade?”. Certamente, não significa pôr em discussão o magistério recente, que, aliás, demonstra cada vez mais a sua visão profunda e a sua atualidade. "Repensar" me parece, antes, que significa duas coisas: em primeiro lugar, combinar o magistério com o desenvolvimento sócio-económico, que, por ser constante e rápido, apresenta sempre novos aspectos; em segundo lugar, "repensar" significa aprofundar, refletir mais, para fazer emergir toda a fecundidade de um valor –que é a solidariedade, neste caso–enraizado no Evangelho, ou seja, em Jesus Cristo, e que, como tal, contém potencialidades inesgotáveis.
 
A atual crise económica e social aumenta a urgência desse "repensar" e sublinha ainda mais a verdade e a atualidade de afirmações do magistério social como a que lemos na Laborem Exercens: "Ao voltarmos o olhar para toda a família humana [...] não pode deixar de atingir-nos um fato desconcertante e de proporções imensas: enquanto, por um lado, conspícuos recursos da natureza permanecem inutilizados, há, por outro, legiões de desempregados e subempregados e multidões sem fim de famintos, fato este que, sem dúvida, testemunha que [...]algo não está funcionando" (nº 18).
 
É um fenómeno, o do desemprego, o da falta e da perda de trabalho, que vem se espalhando veloz por vastas áreas do ocidente e que estende de forma alarmante os limites da pobreza. E não há pior pobreza material, urge salientá-lo, que aquela que não permite ganhar o pão e que priva da dignidade do trabalho.
 
Esse "algo que não está funcionando" já não diz respeito apenas ao sul do mundo, mas ao planeta inteiro. Daí a necessidade de se "repensar a solidariedade" não mais como simples assistência aos mais pobres, mas como uma revisão global de todo o sistema, como busca de caminhos para reformá-lo e corrigi-lo de modo coerente com os direitos fundamentais do homem, de todos os homens.
 
Essa palavra, "solidariedade", que, como se fosse má palavra, não é bem vista pelo mundo econômico, precisa ter restaurada a sua bem merecida cidadania social. A solidariedade não é só mais uma atitude, não é uma esmola social, mas um valor social. E nos pede cidadania.
 
A atual crise não é apenas económica e financeira. Ela está enraizada em uma crise ética e antropológica. Seguir os ídolos do poder, do lucro, do dinheiro, com prioridade sobre o valor da pessoa humana, tornou-se regra básica de funcionamento e critério decisivo de organização. Foi esquecido, e ainda se esquece, que, acima dos negócios, da lógica e dos parâmetros do mercado, está o ser humano e existe algo que é devido ao homem como homem, em virtude da sua dignidade profunda: oferecer-lhe a possibilidade de viver com dignidade e de participar ativamente do bem comum.
 
Bento XVI nos lembrou que toda atividade humana, inclusive a económica, precisamente porque é humana, deve ser estruturada e institucionalizada de forma ética (cf. carta encíclica Caritas in veritate, 36). Nós devemos retornar à centralidade do homem, a uma visão mais ética das atividades e das relações humanas, sem medo de perder alguma coisa.
 
Queridos amigos, obrigado mais uma vez por este encontro e pelo trabalho que vocês desenvolvem. Asseguro a cada um, à fundação, a todos os seus entes queridos, um lugar na minha oração, e, de coração, os abençoo. Obrigado.
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